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No ambiente acadêmico, há alguns anos, vem sendo feito um esforço significativo no sentido de evidenciar a importância da tradição da Escolástica Tardia para a consolidação da ciência econômica moderna.

Economistas modernos

Marjorie Grice-Hutchinson¹ se voltou para o estudo da Escolástica Tardia no intuito de encontrar as raízes das ciências econômicas e as encontrou, especialmente, na chamada Escola de Salamanca, uma tradição intelectual muito importante do mundo ibérico.
Através do estudo do pensamento dos principais eclesiásticos que receberam influência da Escola de Salamanca, Grice-Hutchinson encontrou as origens das principais doutrinas econômicas propaladas pelos economistas modernos.

De modo a facilitar o entendimento da origem e desenvolvimento da ciência econômica, Grice-Hutchinson (1952) dividiu seu livro em três, principais, partes: Os predecessores; a Escola de Salamanca e os sucessores.
Como predecessores, ou seja, as bases das quais originaram a Escola de Salamanca, a autora destaca, principalmente, Aristóteles e Santo Agostinho.
Segundo Grice-Hutchinson, as concepções de direito natural, desenvolvidas tanto por Aristóteles quando por Santo Agostinho, exerceram uma influência definitiva sobre as formulações dos dominicanos e jesuítas da chamada Escola de Salamanca.

Ao tratar sobre a Universidade de Salamanca, propriamente, a autora destacou que Francisco de Vitória, Domingo de Soto e Martín de Azpilcueta Navarro, integraram o quadro da primeira e muito influente geração desta tradição.
Domingo de Banez e Luis de Molina teriam sido, também, importantes nomes que lecionaram na Universidade e que teriam dado continuidade às ideias iniciadas pelos dominicanos e jesuítas acima referidos.
Por último, entre os sucessores desta tradição, a autora destaca nomes como Condillac, Turgot e Galiani, principalmente.



Liberalismo econômico

Também Alexandro Chafuen², em Economía y ética, Raíces cristianas de la economía de libre mercado e Faith and Liberty: The Economic Thought of the Late Scholastics, desenvolve um trabalho pioneiro no sentido de mostrar as origens ibéricas do liberalismo econômico.
Chafuen discute, por exemplo, como a Escolástica Tardia, seguindo a tradição tomista do direito natural deu grande importância à justificação da propriedade privada.
O autor explica que alguns dos primeiros autores escolásticos argumentavam que os bens deveriam ser tidos em comum e condenavam os que possuíam riquezas.
Mas, a Escolástica Tardia rejeitou essa condenação, com base nas escrituras e na análise da ação humana.

Livre mercado

Chafuen cita vários autores da Escolástica Tardia que entendiam que a proteção da propriedade privada e do livre mercado eram as formas mais perfeitas para se organizar uma sociedade.
Tomás de Mercado e Juan de Mariana, por exemplo, reconheceram a relação entre o interesse pessoal e o maior cuidado que as pessoas geralmente tinham com sua propriedade.
Se a troca de bens fosse abolida, afirmavam, seria impossível viver em sociedade, e todos viveríamos em aflição e angústia, já que a sociedade existe porque o homem não é autossuficiente.
Mercado e Mariana acreditavam, também, que a escassez poderia ser superada pela troca mútua daqueles itens tidos em abundância por uns e por outros.

Luis de Molina incluiu muitas passagens favoráveis à propriedade privada no seu De Iustitia et Iure (1556).
Afirmava que se as coisas fossem tidas em comum, seriam pobremente cultivadas e administradas.
A escassez se seguiria e os homens lutariam uns com os outros pelo uso e consumo dos bens.
Os poderosos inevitavelmente explorariam os mais fracos.
Ninguém estaria interessado em servir o bem público e ninguém concordaria em executar aquelas tarefas que requeriam mais esforço.

Domingo De Soto (1494-1560), em De justitia et jure (1553), escreveu que se os bens fossem todos de propriedade comum, a virtude da liberalidade (generosidade) desapareceria, já que aqueles que não têm bens materiais não podem ser liberais.

Propriedade privada

A virtude da hospitalidade também se tornaria impossível, já que as casas seriam de propriedade de ninguém.
De Soto observou que a propriedade privada permite o uso moral dos bens.
Para ele as esmolas deveriam ser dadas dos bens privados e não dos bens comuns.

Ainda mais profundo, quanto à defesa da propriedade privada, é a concepção de Martín de Azpilcueta em seu célebre Manual de Confesores y Penitentes (1556), ao alegar que a extrema necessidade em si não torna ninguém senhor dos bens do vizinho sem o dever da correspondente restituição.
E, também, Francisco de Vitória em Comentarios de la Secunda Secundae (1535), enfatiza que não é suficiente dizer que os bens de alguém são supérfluos para tomá-los livremente.
E afirma, ainda, que a obrigação de dar aos pobres em extrema necessidade não decorre de uma questão de justiça, mas da caridade individual.



¹ GRICE-HUTCHINSON, Marjorie. The School of Salamanca. Oxford: Clarendon Press, 1952.
² CHAFUEN, Alexandro. Faith and Liberty: The Economic Thought of the Late Scholastics. Maryland: Lexington Books, 2003.

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