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Visão Marxista

Globalização é sem dúvida um tema que mexe com as paixões de muitos historiadores.
Sabemos que existem diferentes interpretações para entender e explicar o que representa a globalização para o mundo.
Não temos a pretensão de esgotar o tema.

Nesse momento, apenas nos propomos a analisar duas correntes historiográficas distintas sobre o assunto: a marxista e a liberal.

Link para a visão liberal.

Visão Marxista

Para o historiador marxista Luiz Alberto Moniz Bandeira, por exemplo, o fenômeno da globalização está ligado diretamente ao desenvolvimento do que ele denomina de fase imperialista do capitalismo.
De acordo com ele, desde os tempos das grandes navegações, passando pelo desenvolvimento urbano e industrial do século XIX, até chegar aos conglomerados financeiros dos dias de hoje, a burguesia, em aliança com Estado, teria sido o grupo social mais responsável pela afirmação do sistema.

A necessidade de expandir a produção e o consumo teria, segundo Bandeira, provocado conflitos entre os países que, impulsionados pela liberdade econômica que o mercado lhes assegurava, teriam dado origem a duas guerras mundiais, aumento das desigualdades sociais e aumento do desemprego.
A lei da livre-concorrência, própria do sistema, encarnaria, de acordo com o autor, a própria “lei da selva” no campo da economia.



Segundo Bandeira o processo de Globalização apresenta uma conexão íntima com a própria lógica do capitalismo.
Abordando o fenômeno sob uma ótica marxista, ele sugere que o fortalecimento das instituições burguesas na Europa e a sua necessidade de expansão teria levado a uma ampliação dos mercados e a uma consequente disputa por eles.
Afastadas das eventuais benesses do capitalismo, a maioria da população teria sido mantida à margem do espiral de crescimento e bem-estar desfrutados unicamente pelas classes dominantes.

O quadro atual, portanto, de acordo com esse ponto de vista, seria o de um acirramento da disputa por mercados, com a concorrência entre conglomerados financeiros caracterizada, muitas vezes, pela adoção e institucionalização de práticas monopolísticas; em outras palavras, a globalização, para se sustentar, teria que instituir o desemprego estrutural e dividir o mundo em esferas de influência econômica, tendo como seu carro-chefe o representante-mor do capitalismo ocidental: os Estados Unidos.

Como país que simbolizaria o fenômeno da Globalização, os Estados Unidos seriam, digamos, a locomotiva econômica e política da civilização ocidental, influenciando e determinando os rumos políticos e econômicos de outros países.
Tais países, uma vez que, de acordo com Bandeira, estariam em uma condição de dependência estrutural do país-símbolo da Globalização, não teriam outra alternativa de sobrevivência que não fosse a adesão voluntária ou forçada ao regime vigente.

Em outras palavras, a Globalização geraria uma situação em que os países mais pobres e os chamados emergentes, girariam em torno de um núcleo capitalista fundamental, sendo esse núcleo os Estados Unidos.

Bandeira ainda afirma que, apesar dos avanços de toda a ordem trazidos pelo capitalismo , o sistema encontrará em si mesmo o germe de sua destruição. Fazendo referência a Karl Marx, ele escreve que: conforme a teoria de Marx, o é uma ordem econômica internacional e, sem que se esgotem todas as suas possibilidades de desenvolvimento, o socialismo não é possível.
Tal “esgotamento” do sistema capitalista seria, na acepção do autor, verificado, especialmente, na recente crise financeira que afetou muitos países-símbolo da Globalização, dentre eles, os Estados Unidos.

Por fim, podemos dizer que de acordo com o conceito de globalização de Bandeira, esta pode ser entendida como um sistema econômico e político que é, em seu fundamento, fruto do capitalismo imperialista nascido no século XIX.
Suas principais características seriam a exploração, a exclusão social, econômica e política, a concentração de renda e a militarização dos países na defesa dos interesses do capital.



O historiador Eric Hobsbawm, em seu livro A era dos extremos, também discutiu a questão. Ao abarcar a complexidade dos problemas econômicos do “breve século”, Hobsbawm toca na questão da Globalização dos mercados.
Para ele, tal fenômeno está ligado ao desenvolvimento das instituições burguesas no acordo europeu – assim como afirmou Bandeiras.

Hobsbawm acredita que os embates políticos e econômicos do século passado demonstram que tanto o capitalismo quanto o comunismo teriam falhado em sua “tarefa” de legitimar a ordem social que cada um pregava.
Colocando os dois sistemas em condições de igualdade, no nível das ideologias, ele afirma que o liberalismo econômico também se achava demonstravelmente em bancarrota.

Estava claramente ocorrendo um declínio na fé de uma economia em que os recursos eram alocados inteiramente pelo mercado sem qualquer restrição, em condições de competição ilimitada, um estado de coisas em que se acreditava capaz de produzir não apenas o máximo de bens e serviços, mas também o máximo de felicidade, e o único tipo de sociedade que mereceria o nome de ‘liberdade’. As teorias em que se baseava a teologia neoliberal, embora elegantes, pouca relação tinham com a realidade.

De modo geral, Hobsbawm, da mesma forma que Bandeiras, apresenta um conceito de globalização em que o capitalismo é o seu definidor.
O capitalismo, por sua vez, sendo eivado de contradições, não teria como suprir as “demandas sociais” dos povos sob a sua “dominação”.

As instituições burguesas do Estado de Direito teriam apresentado, ao longo da história, falhas estruturais que, no presente, seriam visíveis: desigualdade sócio-econômica, exclusão social, concentração de renda, distanciamento tecnológico entre os países do primeiro e os do terceiro mundo, crises sociais e econômicas relativamente frequentes, além das guerras, etc..

O que se percebe facilmente desses autores é a proximidade bastante evidente de suas abordagens; nelas, a Globalização dos mercados é entendida como um fenômeno que gera mais consequências negativas do que positivas para a civilização.
Não obstante, a globalização é conceituada como um resultado histórico de um sistema cuja própria funcionalidade seria determinada pela exploração, o capitalismo.

As promessas de liberdade e democracia presentes no Estado de Direito seriam, então, um simulacro das aspirações de históricos grupos sociais dominantes que, em seu afã de conquistar mais poder e mercados, “seduziriam” as classes menos abastadas para participarem, em posição subalterna, dos supostos progressos trazidos pela globalização. Desenvolvimento e Globalização dos mercados, nessa perspectiva, não poderiam caminhar juntos.

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